Os alunos de História do Agrupamento de Escolas de Montenegro e os desafios de aprendizagem sobre a participação de Portugal na Grande Guerra

 
Cristina Barcoso Lourenço, professora de História no Agrupamento de Escolas de Montenegro fez chegar até ao nosso projecto ESCOLAS algumas fotografias, textos e um vídeo, material que colectou e que tão bem reflecte o interesse particular dos seus alunos pela temática da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial, demonstrando que aprender é também algo de muito divertido.

 

Os alunos das turmas A, B e C, do 9º ano (re)criaram nas aulas de História as vivências e até mesmo a presença portuguesa na Primeira Guerra Mundial, e fizeram tudo isto através de trabalhos plásticos, soltando as rédeas à imaginação fundamentada na pesquisa histórica, em fontes e em trabalhos. Tudo com a ajuda da sua professora, Cristina Barcoso Lourenço, que nos trouxe agora parte importante do material que produziram para essas aulas.

Assim, através de cartazes a apelar à participação na guerra, uniformes de soldados, armas, trincheiras fizeram a evocação do Centenário da Grande Guerra e aprenderam História. Os trabalhos estão agora expostos na Biblioteca Escolar e irão depois para as montras dos estabelecimentos comerciais de Montenegro, num projeto em articulação com a Junta de Freguesia, designado "Carga de Trabalhos", para poderem ser apreciados pela comunidade e, uma vez mais, focar as atenções de todos nessa época da história nacional, tão desconhecida ainda de muitos portugueses.

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Os alunos desenvolveram em ambiente escolar diversos trabalhos. O primeiro consistiu em pesquisarem na internet ou em livros da biblioteca escolar uma imagem - que fosse preferencialmente uma fonte primária -  que lhes sugerisse a Primeira Guerra Mundial. Uma vez encontrada, teriam de escrever um texto sobre ela. Os objectivos eram pesquisar e selecionar informação sobre a Grande Guerra; analisar fontes iconográficas; redigir um texto.

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Os resultados foram, na nossa opinião, fantásticos e encorajadores e podem ser consultados aqui.

O segundo trabalho consistiu na recriação de uma carta escrita por um soldado. Foram entregues aos mesmos as seguintes orientações, fornecidas pela professora:

«Carta de um soldado das trincheiras - CONSTRUIR UMA NARRATIVA HISTÓRICA

CARTA DE UM SOLDADO DAS TRINCHEIRAS

Tarefa: Imagina que és um soldado na 1ª Guerra Mundial que combates na Frente Ocidental. Escreve uma carta a uma pessoa à tua escolha (pais, amigo, namorada). Para isso terás de…

1.Escolher a nacionalidade e adaptar o teu nome;
2.Escolher a data e o respetivo contexto.
Na carta deves:

1.Apresentar as razões que te levaram a participar na guerra;
2.Indicar a divisão a que pertences (infantaria, cavalaria, blindada, artilharia) e a tua patente (soldado, cabo, sargento… general…);
3.Descrever a situação na frente de guerra:
3.1.Batalhas sangrentas
3.1.Armamento usado
3.2.Descrição de batalhas
4. Descrever a guerra de desgaste nas trincheiras:
4.1.Frio, lama, ratos, pulgas;
4.2.Falta de higiene e descanso;
4.3.Lentidão nos abastecimentos.
5. O trabalho é entregue de duas formas:
5.1. Formato papel. Aqui deverás usar toda a tua imaginação e construíres uma carta, com envelope, OU bilhete postal. Podes enriquecer a tua carta com um selo da época, uma fotografia tua selo, incluir uma fotografia tua... Não te esqueças que a carta é MANUSCRITA!
Neste site encontras vários exemplos:
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/cartas-do-soldado-ao-seu-amor-so-pensava-em-deus-viame-cercado-pela-morte-1668337
5.2. Formato digital. Passar o conteúdo da carta para word e colocar no moodle
6. O trabalho pode ser individual ou feito a pares.
7. As cartas serão expostas na Biblioteca e também criaremos um livro digital para divulgarmos à comunidade.
8. Data de entrega: 26 de novembro


BIBLIOGRAFIA

Faz boas pesquisas. Na Biblioteca Escolar estão muitos livros e irei também lá deixar meus para consultarem. Criei a disciplina no moodle "Centenário da Primeira Guerra Mundial" com bastante informação selecionada para consultarem.

Não te esqueças de assinalar SEMPRE a referência bibliográfica ou o site de onde retiraste imagens e informação.

Cuidado com os erros históricos!!!»

Neste momento as cartas estão expostas na Biblioteca, existindo a intenção de compilar as mesmas em livro digital. Contudo, Cristina Barcoso Lourenço enviou-nos a carta produzida pela sua aluna Inês Margarido:

Inês Margarido, nº 13, 9ºC, Disciplina de História


«18 de Maio de 1918, hospital de Calais,


A Alice, meu amor

Espero que esta carta que te escrevo te encontre bem. Tanto a ti como aos meus pais. O tempo de afastamento está quase a terminar. Em breve vou regressar e então poderemos realizar todos os sonhos que deixámos interrompidos por este terrível acontecimento.

Há já algum tempo que não te escrevo e todo este tempo sem informações minhas deve ter sido difícil. Lamento ter-te deixado em cuidados. A verdade é que me era impossível contactar-te. Estive e ainda estou num Hospital. Não te preocupes que estou em recuperação e conto em breve estar de partida para Portugal. Que saudades!
Vou-te contar o que me aconteceu.

Como sabes, estou deslocado desde o fim de 1917 na Bélgica, mais precisamente em La Lys, na região da Flandres.

Espera, antes vou dizer-te que fui promovido. Sou MAJOR de Infantaria. Espantas-te? Não te admires. Estávamos em La Lys havia já há seis meses sem descanso, sem folgas nem autorizações para visitar o país. Alguns oficiais conseguiram uma licença para ausentar-se por uns dias. O tempo foi passando e alguns dos oficiais nunca mais retornaram à frente de batalha. Para completar as hierarquias foi necessário a promoção de alguns de nós e eu fui promovido a Major, o que, naturalmente me deixou vaidoso. Sabes que sempre foi o meu sonho a carreira militar e foi para isto que estudei na escola militar… Já sei que não concordas, não te chateio mais com este assunto.

Havias de ver o meu novo uniforme: um dólman com seis botões que tem uma gola alta de 6 cm., quatro algibeiras grandes à frente. As calças eram de lã cinzenta, tal como o dólman.

Com estava a dizer-te, estava em La Lys na minha nova patente em Abril de 1918 quando a guerra e o conflito se intensificaram. Na verdade, havia já algum tempo que pressentíamos que os ataques dos Boches estavam a ficar mais violentos e menos espaçados no tempo. O nosso dia-a-dia nas trincheiras que já era muito difícil em situação “normal” e nestes últimos tempos as coisas ficaram ainda pior… as trincheiras!

As trincheiras surgiram como resposta às novas armas, mais violentas e precisas, como a metralhadora. Surgiram também porque o exército inimigo tinha uma força igualitária à nossa. De forma a evitar a “carnificina” em que as batalhas se estavam a tornar devido às metralhadoras, começaram-se a escavar trincheiras para maior protecção das unidades. Como, por fim, havia trincheiras de ambos os lados, e algum impasse nas movimentações, desenvolveram-se novas tácticas e equipamentos como o uso de gases, a utilização de carros de combate, de aviões de combate e de artilharia pesada. Tudo na trincheira se organizava em função da segurança, da capacidade de sobrevivência, da vigilância e do inimigo. O quotidiano era feito de falta de condições sanitária, as doenças eram comuns, as pestes de animais frequentes (pulgas e ratos atraídos pelos corpos em decomposição). A chuva e a neve ajudavam a dificultar ainda mais as nossas condições de sobrevivência. Por baixo dos estrados que pisamos corre continuamente um caudal de água. Podemos pressenti-la todos os dias a todas as horas. A nossa própria alimentação não era aquilo a que estávamos habituados. Não que fosse má tendo em conta as circunstâncias, mas não era nosso gosto e as condições de transporte para as trincheiras da frente eram deficientes.

Não me posso perder. Estava a falar-te da batalha em que fiquei ferido, a de La Lys. Como te dizia, os combates tinham vindo a ficar mais violentos e ouvia-se o disparo de canhões e granadas com mais assiduidade. O moral da nossa tropa, pelo afastamento de casa, pela falta de descanso (éramos a única que não tinha uma folga há vários meses) e pelo intensificar da atividade dos Boches, estava em níveis baixíssimos, pelo que o comando Inglês decidiu substituir-nos na frente de batalha por uma divisão Inglesa. A substituição iniciou-se com a saída de algumas companhias e foi precisamente neste momento de menores defesas e com menos vontade de combater (iriamos ser substituídos e muitos de nós já se viam em Portugal) que os Alemães nos atacaram em força com toda a artilharia, gases e efectivos que possuíam na zona de combate. Com o meu regimento resistimos o máximo possível. Durante a noite podíamos ver os estilhaços de canhões a voar depois dos impactos. O chão tremia incessantemente. A destruição é quase total. O massacre nas trincheiras conquistadas pelos Boches é horrível. As resistências caiam umas a seguir às outras perante tal ofensiva feita com uma diferença de meios mecânicos e humanos tão desproporcional. Mas nós vendemos cara a nossa derrota. Tudo perdido, menos a Honra! Tivemos de retirar o mais depressa possível. Entre os meus homens houve um que sobressaiu: o Milhais. Uma vez a salvo, o comandante tomou conhecimentos dos seus feitos e saudou-o ao dizer-lhe “Tu és Milhais, mas vales Milhões”

Eu fiquei ferido durante a batalha, mas como te disse nada de grave. Espero chegar quase ao mesmo tempo desta carta que já vai longa.

Em breve estaremos juntos!
Manuel Batista, o teu Major»

O terceiro e último trabalho, agora de grupo, consistia em (re)criarem plasticamente a Primeira Guerra Mundial. A professora Cristina enviou-nos imagens fantásticas, que se complementam com um vídeo, ao qual também podem assistir, e que demonstram a visão destes jovens, que nos trás trincheiras com postos de socorros e abrigos, homens feridos e mortos e «Terras de Ninguém», bem como cadernetas militares, postais ou até armamento. A visão de jovens sobre um conflito que, lamentavelmente, muitos adultos não conhecem ainda, e para o qual acordamos agora todos, como participantes numa conflagração que se estuda cada vez mais, em parte devido às evocações mundiais que, também por cá, aguçam a curiosidade sobre o assunto a pequenos e graúdos.

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O apoio da escola passou por publicarem o que os alunos iam fazendo no site http://www.agrupamontenegro.com/site/. A Biblioteca Escolar disponibilizou o espaço para a exposição e o Agrupamento tem um projeto de articulação com a Junta de Freguesia que consiste em valorizar os trabalhos dos alunos através da sua exposição nas montras dos estabelecimentos comerciais - Carga de Trabalhos. 

Assim, à professora Cristina Barcoso Lourenço, aos seus alunos e ao Agrupamento de Escolas de Montenegro, o nosso agradecimento pela partilha, e os nossos parabéns pelo magnífico trabalho, em prol do Saber e do Conhecimento desse momento da História do nosso Portugal.

 

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